Valor Mortis – Análise

Apesar do género soulslike ser geralmente associado à perspetiva em terceira pessoa, graças à popularidade de Dark Souls e Elden Ring, os primórdios da From Software, e a inspiração para os seus jogos mais populares, foram com o ponto de vista em primeira pessoa, com King’s Field em 1994. A One More Level, usando a sua experiência com os estupendos Ghostrunner e Ghostrunner II, decidiu explorar o género com esta perspetiva mais pessoal, adicionando o seu toque de ação corpo-a-corpo intensa que tornava os combates de Ghostrunner tão frenéticos.

Valor Mortis não esconde, é um soulslike em primeira pessoa. Ou, para não chatear os fãs puristas do género, um “soulslite”, já que contém os típicos elementos do género que disparou em popularidade nos últimos anos: Dificuldade mais elevada que a média, os inimigos mortos voltam quando descansam num checkpoint, o jogador perde as “souls” quando morre, muitos pedaços narrativos são contados pelo ambiente à nossa volta, etc. A maior diferença que posso apontar é a falta de builds, já que em vez de uma variedade de armas e um sistema de stats para construir a vossa personagem, têm uma skill tree estática, onde escolhem quais habilidades adquirir ou melhorar.

Passado na era napoleónica, nós controlamos William, um soldado inglês que acorda entre um monte de cadáveres, armado apenas com a sua espada. William testemunha os horrores da guerra e, depois de anos sob a propaganda de Napoleão, começa a questionar a causa desta campanha e a sua lealdade perante o imperador.

Os “horrores da guerra” em Valor Mortis tomam um sentido bastante visual e literal. Não são apenas horrores pela quantidade de morte e os atos tomados pelos superiores militares. A corrupção desfigura os soldados, que foram transformados para morrerem e renascerem e continuar a combater, presos à obrigação de combater pelo seu país. Alguns tomam a forma de monstruosidades e aglomerações de carne, osso e pólvora sem pensamentos, só instinto que aterroriza William quando tem de enfrentar os próprios irmãos em armas para sobreviver.

Cada confronto entre William e o inimigo é um teste de reflexos, e é muito fácil morrermos se não prestarmos atenção. Apesar de ganhar acesso a armas de fogo durante a campanha, a base do combate é sempre corpo-a-corpo. É importante dominar a mecânica do parry e os ataques inimigos, já que grande parte do dano que conseguem causar acontece quando quebram a postura do inimigo (pensem em Sekiro) e, apesar de conseguirem derrotar inimigos sem um único riposte, o jogo é muito mais fácil – e divertido – quando estão a defletir e a desviar todos os golpes que a vocês se encaminham. O jogo brilha nas lutas contra bosses, há uma satisfação enorme em conseguir refletir uma enxurrada de ataques do boss, quebrar a postura deles e dar o golpe final. Apesar de rara, Valor Mortis mostra também muita criatividade em alguns deles, e há aqui um par de lutas que me surpreenderam, tanto no design do boss, como na ação do combate e a intensidade da banda sonora.

No lado menos positivo do combate: os inimigos de Valor Mortis requerem aprendizagem, muitos dos ataques não são facilmente lidos, fui apanhado de surpresa por ataques imensas vezes e, devido a esta natureza, provavelmente vão morrer várias vezes antes de conseguirem “perceber” os inimigos, sejam eles bosses, ou comuns. O que cria aqui um conflito com outra queixa que posso levantar: não há muita variedade de inimigos, e isto nota-se mais perto do final do jogo, quando começa a haver reciclagem de bosses anteriores (pensem em, por exemplo: a reutilização de Capra Demons no Dark Souls), coisa que eu costumo odiar porque retira a singularidade dos bosses em jogos.

Esta ausência de variedade também se expõe no arsenal e habilidades do personagem, mas aqui percebo que os criadores queriam algo mais concentrado e focado. Existem três espadas que podem utilizar e são bastante diferentes entre si, já que uma favorece muito mais o elemento de risco/recompensa com os parries, outra é mais equilibrada, e outra foca-se mais em dano puro (que não gostei, porque retira a habilidade de deflexão, e considero que é uma habilidade demasiado forte para não usar). Para além das espadas podem usar armas de fogo, e poderes sobrenaturais, mas estes são secundários e, para além de limitados por munições e “magia”, não são tão eficazes como andar à paulada. Dito isto, sinto que tenho de reforçar que o combate é geralmente muito satisfatório (foi frustrante em certas partes, devido a bugs que deverão ser corrigidos no patch day one).

A exploração está bem executada. Valor Mortis toma uma aproximação ao level design mais linear, no sentido em que o mapa está separado por capítulos e zonas. Não esperem um mundo tão orgânico e interconectado como o de Dark Souls – por um lado é uma pena, e as transições de níveis artificiais fazem com que a imersão se perca um pouco – mas há espaço para tomarem caminhos diferentes e serem recompensados com items, quests, lore ou mini-bosses. Graças aos poderes sobrenaturais que desbloqueiam durante o jogo, também desbloqueiam novos caminhos e áreas nas várias zonas do jogo, ao estilo de um metroidvania. As habilidades não são exclusivas a combate: graças ao poder de fogo como exemplo, podem queimar obstáculos e desbloquear novas rotas.

Nota sobre a versão Steam do jogo: Há um par de capítulos onde o “frame stuttering” (sim, é um jogo em UE5) ataca com mais força. Tirando aí, a performance do jogo no PC (7800X3D, 5080, 32gb RAM) foi geralmente boa, e foi prometido melhor otimização com o patch de lançamento.

Num ponto final, gostava que o jogo tivesse mostrado um pouco mais da criatividade que mencionei acima. Não quero “spoilar” o boss que me surpreendeu, mas o uso do combate e mecânicas de movimento funcionou muito bem e é pena que não tenha sido mais explorado. Tendo em conta o portefólio da One More Level com os Ghostrunner de que eu gostei muito, penso que podiam ter integrado um pouco mais do ADN desses jogos aqui para criar algo mais único que fosse para além do “soulslike em primeira pessoa”.

Não obstante, a primeira tentativa da One More Level neste género é um sucesso. Valor Mortis conta com um mundo grotesco e combate visceral que é muito divertido e satisfatório, tanto para explorar e desvendar, como para batalhar, e visto que o jogo custa apenas 39.99€ em vez dos cada vez mais presentes 79.99€, (para além de estar disponível no Xbox Game Pass), leva a minha recomendação. 8 em 10.

Deixamos um agradecimento especial à TriplePoint por ter cedido uma chave Steam do jogo para esta análise.

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