Análises

Análise: The Banner Saga 3

“The Banner Saga 3” foi lançado e publicado pela Versus Evil a 26 de Julho deste ano pelo preço de 29,99 euros. Esta análise tem por base apenas a versão na plataforma Playtation 4 (o jogo também se encontra disponível na Xbox One, PC e Nintendo Switch) e foi completado em Normal – e testado em Hard. O código do jogo foi oferecido pela Versus Evil e Stoic às quais agradecemos pela oportunidade.


Como é sugerido pelo título do jogo, “The Banner Saga 3”, é a terceira e última entrada desta longa jornada. À semelhança do seus antecessores, é um tactical turn-based rpg inspirado na mitologia nórdica onde seguimos a história dos vários clãs que tentam sobreviver à inevitável desolação que cobre a terra.

O sistema de combate sofre algumas alterações nesta entrada, apesar do “willpower” continuar a ser central à forma como o campo de batalha se guia, numa das duas histórias que presenciamos, o “horn of willpower” é substituído por uma “Valka Spear”, que, não atribui “willpower” às personagens, mas serve como um instrumento ofensivo emulando a habilidade eléctrica do Eyvind – com menos potência.

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A introdução da nova mecânica de ondas permite estimular mais cada confronto. Esta mecânica funciona com base no movimento por turnos, ou seja, cada turno que passa – por parte do jogador – aumenta a proximidade da segunda onda, cuja duração varia consoante a batalha, e, possivelmente o número de inimigos enfrentados. Algumas batalhas não têm ondas de inimigos, e outras, não contêm a mecânica de todo. O sistema está bem implementado, pois, pressiona o jogador a tomar decisões inteligentes e rápidas em combate, para eliminar os inimigos antes da chegada da seguinte onda. No sucesso do jogador, é possível substituir os elementos da party actual pelos de reserva, antes da próxima onda. Também é importante mencionar que estas ondas adicionais são opcionais quando o jogador completa antes do tempo indicado e não têm impacto na história – com uma excepção ou outra. Este conceito acaba por funcionar pois recompensa o jogador por jogar melhor com a possibilidade de obter um item raro e melhorar as suas personagens para futuros encontros, enquanto o castiga quando o jogador perde sem ser necessariamente pesado. Contudo, isto apenas aplica-se à dificuldade normal, em hard, à semelhança dos jogos anteriores, o jogo consegue ser um pouco injusto, especialmente com este sistema de ondas, sendo pouco recomendado enfrentar as ondas opcionais. O combate, apesar de sólido, acaba por ser limitado pela ausência de um campo de batalha mais interactivo e da sua própria simplicidade – que consegue apresentar camadas.

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De resto, o combate permanece praticamente o mesmo da segunda entrada, apenas acrescentando ao que já existia. Algumas personagens podem chegar a possuir três habilidades indicando flexibilidade nas classes e em combate. A criação do título heróico – que consiste em – ao alcançar o nível 10 com uma personagem aumenta o seu potencial em combate e suporta essa flexibilidade. Essas habilidades, as passivas de cada personagem e o título heróico acabam por ser vitais na escolha da precedência de aliados, para além da sua classe e tamanho, que contrapõe com a presença de novos inimigos e obstáculos em campo.

Estas batalhas acompanham a narrativa que se desfia nos seus possíveis fios consoante as decisões que tomaram ao longo desta aventura, seja nesta entrada ou na primeira as vossas acções têm consequências. No caso de já terem acompanhado a aventura desde o primeiro jogo, esta última parte da saga aproveita a bagagem emocional que carregamos das anteriores. A história de “Banner Saga 3” continua a partir do turbilhão político e social em que encontramos a cidade de Arberrang – o último refúgio para a vida; e a partida de Iver, Juno e Eyvind para o centro da escuridão que cobre o mundo. Igualmente persiste a mesma sociedade de ordens com contornos discriminatórios, racistas e sexistas que marcaram a saga, seja da desconfiança entre varls e humanos, ou o desdém pela opinião e imposição de mulheres. Estas temáticas sentem-se por descrições e comportamentos expressos em momentos narrativos externos, i. e., momentos que não envolvem directamente as personagens principais ou secundárias, como acaba por emergir em momentos internos ou domésticos com as personagens que acompanham. Durante esta dura e onerosa campanha também é possível falar com esses mesmos(as) companheiros(as) extraindo mais do pensam sobre os eventos e as vossas decisões. A escrita nas descrições dos eventos que decorrem na narrativa têm uma boa realização em imergir o jogador com a sua clareza e detalhe; a escrita também joga em favor das personagens nos seus diálogos, que são sólidos e concisos, mesmo que as interacções não sejam sempre memoráveis; o rico enredo e lore que caracterizam a trilogia continuam a impressionar.

Infelizmente, não posso confirmar se a totalidade das nossas escolhas têm um impacto significativo nas possíveis ramificações, enquanto que se nota que a presença de algumas personagens em certos eventos têm impacto, em outros, nem tanto. Como é o caso do príncipe Ludin, que estava vivo no meu playthrough, mas parece ter tido pouca influência no acto da cidade de Arberrang, apesar de ser filho do rei (o combate é óbvio que quantas mais personagens, melhor, especialmente na dificuldade mais elevada). Posso destacar a mecânica da caravana e a sua manutenção, algo que sofreu alterações ao longo da trilogia na sua aplicação, acaba por recompensar as difíceis decisões dos jogadores para a salvaguardar. Não desejo explicar para não estragar totalmente a surpresa para os jogadores, mas, acabou por ser implementada significativamente para a história.

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É inegável que um tom taciturno e lúgubre está enraizado nesta jornada, porém, na última entrada somos confrontados com a realidade torcida da escuridão que a Serpente causa sobre a região, no entretanto a segurar a defesa da frágil cidade de Arberrang. A história fatalista entra no seu pico e catarse que é elevada pelos belos cenários desenhados à mão – utilizando o processo artístico de rotoscopia para as fluídas animações em combate – e pela excelente banda sonora que consegue, dentro do possível, compensar a ausência de animações entre os diálogos das personagens e cinemáticas, carregando os acontecimentos e as marchas pelo jogo com uma maior atmosfera.

Sem fugir ao tom definido, a estética como a banda sonora adoptam directrizes mais assombrosas. “Banner Saga 3”, perde bastante da diversidade paisagística anterior – derivado do rumo da narrativa -, mas não a sua qualidade. Arberrang e os seus cantos são lindíssimos de se ver na sua confusão e decadência com o passar dos dias; por outro lado, as antigas paisagens que percorremos na jornada estão consumidas pela escuridão. Desde Setterlund a Rundwall apenas encontramos desolação, as múltiplas cores pintavam as paisagens são substituídas por tonalidades frias como roxo, azul, preto que contrastam com a pouca luz que a caravana de Juno e Iver emite. As planícies, as serras, as montanhas, os rios, os planaltos estão (virtualmente) irreconhecíveis, uma composição obtusa e torcida ocupa o seu lugar, o chão, as árvores, as pedras, fracturados e deteriorados são agora o reino dos vis warped que servem os desejos da Serpente. O mundo está a morrer (e são estas as imagens que nos acompanham).

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Arberrang, o início do fim
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Nada sobrou

Austin Wintory, compositor desta deliciosa banda sonora, recorre a composições mais sombrias, onde, ou os instrumentos de sopro são mais estridentes ou as cordas que acompanham no plano de fundo evocam perigo e aflição; mesmo quando os instrumentos expressam-se em composições mais calmas, como Into the Hurricane, estas sensações permanecem.  Na Steel Flowing like Water e Ruin Beyond the Walls, por exemplo, a estrutura bélica de composições está presente com um forte uso percussivo e sopro, contudo, simultaneamente, não escapam à mancha arrepiante das cordas que cobrem esta banda sonora, jogando harmoniosamente entre os dois. We Live as We will Live, também flutua entre o estoicismo e a desolação, emergindo com os coros prolongados e as cordas, apoiados de sopro e percussão que rompem com a sua plenitude. No entanto, Wintory, não esquece as composições melódicas dos jogos anteriores. Quase como catarse, finaliza com a Fate, Chosen e Only We Few Remeber it Now, marcadas por nostalgia e um sabor agridoce, nas vitórias e nas derrotas, no sofrimento e na felicidade, expressando a nossa longa saga, que chega ao fim, mas que continua para além dos nossos olhos.


Concluindo, “The Banner Saga 3”, finaliza uma intensa saga com poucas falhas na sua execução, apresentando um sólido, mas simples sistema de combate – com algumas camadas; um forte enredo e lore num mundo fantástico e aliciante, entregue por uma escrita que consegue imergir o jogador na sua história, apesar das ausências nas interacções com as personagens – possivelmente da falta de voice acting; complementado por uma épica banda sonora e maravilhosa arte. Considerando tudo isto, atribuo uma nota final de 8 em 10 (sem decimais), adorei este universo e espero que um dia a Stoic volte para descortinar mais dos seus cantos. Facilmente recomendo este jogo se gostam de rpgs e turn-based combat; podem comprar a trilogia completa por 39,99 euros.

 

 

 

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