Marvel’s Wolverine – Muito sangue, mas pouca garra (Análise)

Se estão a ler esta análise com certeza não conseguiram escapar ao que foram umas semanas de discussão “interessantes” (para ser delicado) em torno do Marvel’s Wolverine. Palavras como “fart trail” inundaram as redes sociais e atrevo-me a dizer que, críticas legítimas ao jogo e ao game design em AAAs foram afundadas no meio de discursos desonestos ou odiosos, tal é o estado atual da internet.

Marvel’s Wolverine é o novo exclusivo da PlayStation 5 que parece querer prolongar o sucesso do portefólio da Insomniac Games com o universo da Marvel. Mas, onde os Marvel’s Spider-Man eram aventuras em mundo aberto, um quasi-sandbox da experiência Peter Parker e Miles Morales, Wolverine toma uma rota mais fechada no seu design e narrativa. O jogo é linear, separado por níveis/capítulos e com muito pouco conteúdo adicional. Eu vi esta mudança com bons olhos durante os trailers e revelação do jogo, gosto muito dos Marvel’s Spider-Man, mas tenho uma fadiga crescente para com mundos abertos que não arriscam. Contudo, dada a receção morna ao Wolverine, desconfio que a Sony não vai ter a mesma opinião.

Esta versão do Logan conta a sua história como parte da Team X, sob a liderança de Nathaniel Essex, onde enfrenta adversários como Trask, The Hand, ou o arqui-inimigo do próprio Wolverine: amnésia. Eu não posso dizer que conheço muito sobre as origens do herói na banda desenhada. Vi os filmes da Fox e pouco mais, por isso, não sei o quão fiel este enredo é às histórias da banda desenhada. Os temas de discriminação e identidade sempre fulcrais a X-Men estão aqui – não podiam faltar – mas a execução da narrativa não me deixou particularmente envolvido no seu universo. As relações entre o Logan e outras personagens, sobretudo com a Jean Grey, Victor Creed e Nathaniel Essex são interessantes, mas senti sempre que as personagens tinham uma ou duas falas a mais no guião que tiravam um pouco de naturalidade ao diálogo em prol da exposição. Há também uma boa parte do jogo que quase parece ser uma história completamente diferente, mas teve de ser contada para que o enredo chegasse ao “twist” que os escritores queriam alcançar.

Não obstante, apesar de não ser memorável, é uma história decente que servem bem como desculpa para fatiar e picar uns vilões, sejam eles ninjas, mercenários ou robôs. O combate de Wolverine é simples, mas vistoso e visceral. O Logan salta e rodopia por todo lado enquanto corta os inimigos num baile de sangue, ele é tão rápido e violento como esperariam, e em dificuldades mais leves podem limpar os inimigos à base do botão de atacar. Nas dificuldades mais altas já é mais um teste de reflexos, têm de ripostar os ataques inimigos e ter cuidados com os números, porque é fácil ser sobrecarregado por multidões. Contudo, podem encontrar-se a lutar não só contra ninjas invisíveis, mas também contra a própria câmara. A câmara está bastante próxima do protagonista (não tanto como num God of War, mas mais do que o típico Hack n’ Slash), e isto causa problemas quando tens uma grande quantidade de inimigos, alguns que se teleportam dum lado para o outro, e precisas de reagir aos ataques deles, a câmara não acompanha a ação automaticamente e é preciso que o jogador a controle manualmente, que no meio de todo o caos é difícil de fazer.

Ser um jogo curto também ajuda o combate e gameplay geral. Eu fiz a platina em 19 horas de acordo com a minha PlayStation 5, a campanha deve ter durado cerca de 17 horas na dificuldade “The Weapon” (a penúltima dificuldade). Sinto que o jogo não se estendeu demasiado, mas se fosse mais longo que isso, tenho a certeza que ia começar a sentir-me saturado, pois a natureza do combate, e o próprio design das missões não varia o suficiente. E onde se nota mais isso até é nas arenas opcionais, há “gauntlets” que podem completar em trocar de recompensas cosméticas, e nesses combates têm de alcançar pontuações específicas contra ondas de inimigos. Cada desses combates chega até às 25 ondas, e posso dizer que estas gauntlets ficam muito rapidamente aborrecidas, não há truques nem estratégias para o combate, é o custo de ser simples. Então quando vais do 200º inimigo a usar os mesmos movimentos e truques, só dá vontade de sair dali. Ainda assim, há alguns bosses que fazem o combate brilhar, e até acho que o combate é mais divertido em situações de um contra um, do que um contra muitos.

O discurso que eu posso fazer sobre este jogo é semelhante, ou igualmente aplicável a muitos outros AAAs que foram lançados nos últimos 10 anos. Há demasiado “hand-holding”? Sim, os “fart trails” até são boas opções de acessibilidade, mas não precisavam de estar constantemente presentes num jogo linear que já incentiva pouca exploração. Também não são particularmente atrativos, prefiro a tinta amarela, que ao menos tenta ser mais “natural” do que o fumo tão gritante neste jogo. Os pop-ups de tutoriais constantes irritam, e as personagens falam mais do que é preciso. Mas mesmo olhando para além destes problemas que já foram repetidos e cantarolados pela internet fora, Marvel’s Wolverine é mais um jogo que segue a formula à risca, tanto no seu design, como na sua narrativa. Atenção, um jogo seguro não quer dizer que seja um jogo mau, mas perde-se tanto charme numa obra quando a sua identidade parece ter sido saída dum quadro branco com um número de tópicos a ser atingido. E tematicamente, não consigo deixar de apontar o contraste entre o Logan, que se atira de cabeça aos tiroteios e é tudo menos seguro, e o seu jogo, que parece ter medo de criatividade.

Marvel’s Wolverine é um jogo competente, divertido até, salvo algumas partes. É um título de alta produção sobre um dos heróis mais populares da Marvel, e isso já é uma boa razão para os fãs jogarem. Mas é um jogo com pouco impacto ou identidade. Fast food é um termo que se aplicaria confortavelmente aqui para concluir a minha análise, mas fast food ainda não custa 79.99€. E num par de meses onde saem jogos de alto calibre como Control Resonant, The Blood of Dawnwalker, Onimusha: Way of the Sword, Ace Combat 8: Wings of Theve ou Fire Emblem: Fortune’s Weave, custa-me recomendar o Wolverine. Atribuo um 6 em 10.

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