Metade Ansiedade, Metade Carnificina – Resident Evil Requiem (Análise)

3 anos após o excecional remake de Resident Evil 4, a Capcom regressa à sua franquia predileta com Resident Evil Requiem, que procura comemorar o 30º aniversário da mesma com um regresso ao local onde tudo começou: Raccoon City.

O jogo divide-se por 2 perspetivas distintas, Grace Ashcroft, uma jovem analista do FBI que perdeu a sua mãe de forma trágica 8 anos antes, começando o enredo por trazer Grace de volta ao local onde tudo aconteceu e rapidamente a situação descamba e Grace vê-se enfrentada por misteriosas criaturas que terá de superar de forma a escapar.

Do lado oposto temos Leon S. Kennedy, uma das caras da franquia, que regressa neste jogo e acaba por se cruzar com Grace e a ajudar, acabando por trabalharem juntos embora de forma indireta pois rapidamente se separam e o jogo nos troca entre ambos em certos pontos para podermos experienciar cada um dos pontos de vista das personagens.
Embora tenha algumas quezílias com a narrativa em determinados pontos, no geral sinto que foi bastante sólida, em especial Grace, que é uma das melhores personagens que já passou por esta franquia, sendo uma representação excecional de ansiedade e isolamento resultantes de trauma, algo ainda mais consolidado por uma das melhores performances de voz que já ouvi num videojogo, Angela Sant’Albano faz um trabalho tão bom que não me chocaria se daqui a um ano ou dois a víssemos em dezenas e dezenas de jogos daí em diante.

Visualmente, o jogo é simplesmente estonteante, sem dúvida um dos mais bonitos que joguei em toda a geração e com uma implementação de HDR irrepreensível, tudo isto a correr a 60fps estáveis, a performance do jogo é tão boa que mesmo suportando VRR de forma nativa o jogo pouco ou nunca cai abaixo dos 60. Destaco também os vários locais que exploramos durante o jogo, que são não só bastante apelativos visualmente como tão fotorrealistas que em momentos nos trazem de volta aos excelentes cenários pré-renderizados dos títulos clássicos da saga.

Ao nível da banda sonora, composta por Nao Sato, Masahiro Ohki e Shigeyuki Kameda, é muito boa, adicionando bastante personalidade e atmosfera a cada local que exploramos e apresentando uma boa dicotomia entre personagens, as secções de Grace marcadas por músicas mais serenas e de ambiente, enquanto Leon se caracteriza por músicas mais bombásticas mesmo para nos dar adrenalina durante as várias sequências de ação, podendo ser ouvida aqui.

A jogabilidade é onde o contraste entre ambos os protagonistas é mais uma vez acentuado, Grace é basicamente a experiência clássica de Resident Evil, pautada pela gerência de items e munições extremamente limitadas onde o combate é pouco recomendado e a exploração é chave para progredir, já Leon é basicamente uma evolução da jogabilidade de Resident Evil 4 Remake, estando todos os elementos desse jogo aqui presentes, nomeadamente os extremamente satisfatórios parry, que agora podemos fazer não só com a faca (machado neste jogo), mas também com qualquer arma de fogo, relembrando de certa forma os counters de jogos como Killer 7.

As sequências de Grace foram as minhas favoritas, em especial na primeira metade do jogo no Care Center, há tanto para explorar e desbloquear que acaba por ser quase uma experiência terapêutica onde os zombies só lá estão para nos atrasar um pouco o progresso, dando-me um gozo imenso explorar cada canto e recanto deste local em especial à medida que fui desbloqueando chaves para aceder a novas zonas.
As sequências de Leon, por outro lado, são a carnificina pura com um dos sistemas de gore mais impressionantes que já vi num videojogo, os inimigos são de tal forma maleáveis ao nível do dano que levam que até por vezes ao pegarem numa motosserra podem sofrer um acidente com a mesma e ficarem sem um braço ou perna ainda antes de sequer se aproximarem do jogador, algo que adorei, pois é um detalhe que não esperava de todo.

Em termos de armas os suspeitos do costume estão todos aqui, temos de tudo, desde pistolas e caçadeiras a lança foguetes e magnums, todas elas extremamente satisfatórias de manusear, embora deva admitir que fiquei algo desapontado com as Snipers deste jogo, que estranhamente embora sendo no mesmo motor de jogo e equipa que desenvolveu Resident Evil 4 Remake não têm um impacto tão satisfatório e palpável como nesse.

Ao nível dos inimigos e bosses, no geral gostei bastante, estando perante provavelmente a melhor inteligência artificial na série, estes inimigos são impiedosos e bastante ágeis, tornando mesmo confrontos com um ou dois extremamente tensos.
Mas a minha adição favorita é sem dúvida o regresso dos Crimson Heads, denominados de Blister Heads neste jogo, sim os mesmos Crimson Heads de Resident Evil Remake, 24 anos depois a Capcom trouxe de volta esse conceito e o resultado é excecional, para quem não os conhece basicamente cada zombie que matamos tem uma chance aleatória de regressar à vida numa versão mais perigosa, ágil e poderosa de si, sendo também extremamente resilientes, sendo de certa forma dissuasores para as pessoas não matarem todos os zombies que encontram.

Sinto que o único grande problema do jogo é, tal como em todos os jogos da série, a última metade ser um misto, pois é onde introduzem os inimigos mais enfadonhos e o jogo se torna tão linear que fica um pouco aborrecido de progredir num cenário algo genérico, ainda assim os 2/3 que antecedem este local são dos melhores em toda a série.

Em suma, Resident Evil Requiem é mais uma entrada excecional, a Capcom está há 9 anos a lançar alguns dos melhores jogos no género com raras exceções (não falamos de Resident Evil 3 Remake), e Requiem vale ainda mais por introduzir Grace, que espero ver regressar mais no futuro, pelo menos mais que Jill e Claire que infelizmente estão desaparecidas há anos, este jogo é um tiro certeiro tanto no que a terror como ação diz respeito, pelo que lhe atribuo um 9/10.

Leave a comment