Análises Multiplataformas

Análise — NieR Replicant™ ver.1.22474487139…

Nier é um conto de fadas, mas um conto de fadas no qual a nossa percepção das coisas vai mudando. Não só pela evolução das personagens em si, mas também por coisas que vamos descobrindo sobre o mundo, as personagens e as circunstâncias à medida que o jogamos.

Agradecemos à Ecoplay por nos ter cedido a chave Steam para análise. Nier Replicant™ ver.1.22474487139… está disponível para Steam ,PS4 e Xbox One.

Nier foi lançado originalmente em 2010, altura em que escapou completamente à minha velha Xbox 360. Não propriamente por falta de interesse da minha parte, note-se: foi simplesmente um jogo que não apareceu no meu radar na altura. Anos depois, descobri em conversas o que estava a perder, mas já era um pouco tarde: já tinha fugido para o PC, tinha a 360 a ganhar pó e nunca fui propriamente pessoa para andar a rastrear jogos por aí. Felizmente, 11 anos depois, cá apareceu pelo Steam o NieR Replicant™ ver.1.22474487139… (com o seu título desnecessariamente confuso e ao qual a partir daqui vou chamar só Nier) para me matar a curiosidade que só tinha aumentado desde que joguei Nier: Automata.

E então, valeu a pena a espera? Bom, antes de responder a essa pergunta, quero deixar já fora do caminho o lado negativo do jogo: o port, o maldito port. Já a versão para PC do Automata tinha tido os seus problemas, mas fui dos sortudos que não foi muito afectado por isso. Aqui, a sorte não foi tanta. Por vezes, o jogo começava a passar em câmara lenta… Perdão, nem era só bem o jogo! Isto era coisa que afectava os próprios menus e até os logos ao começar. Outras vezes, mais raramente, parecia que estava a tentar recuperar trabalho atrasado e ficava a cuspir frames a alta velocidade. Em ambos os casos ficava, obviamente, injogável. Isto era chato, sim, mas longe de ser a pior parte: Nier comete um dos pecados capitais que um jogo de PC pode cometer, que é não fazer desaparecer o cursor do rato. Felizmente, isto são questões que já foram resolvidas pela comunidade, mas não deixa de ser triste ver a Square-Enix a repetir a asneira de novo. Afinal de contas, é uma editora de topo que tem sem dúvida recursos para evitar estas coisas.

Voltando então à pergunta: valeu a pena a espera? Sim, indubitavelmente sim. Em boa parte devido às limitações do jogo original, que apenas ouvi em segunda mão, que foi várias vezes acusado de “ser feio”, “desconexo” e “com mau gameplay”. Mas apesar disso, a narrativa e a banda sonora saltavam por cima desses defeitos e tornavam o jogo em algo que valia bem a pena. Ora, esta nova versão de Nier resolve esses problemas, ao ponto de que nem consigo ter bem noção de como eles seriam ao certo.

Foram frequentes as vezes que dei por mim a olhar à volta para apreciar os locais em que estava. Mesmo com esta nova “mão de tinta” em cima, o jogo não é propriamente uma portento da alta tecnologia gráfica, mas o trabalho que foi feito é sem dúvida mais que suficiente para entrarmos naquele mundo e para puxar pela nossa curiosidade sobre o que ali se terá passado. As animações são devidamente fluídas e sentimos bem o impacto dos nossos ataques e dos dos inimigos.

O combate é simplista, mas funcional: na parte física, temos os habituais ataque fraco, ataque forte, bloqueio e desvio. Com o timing certo, um bloqueio desequilibra um inimigo e deixa-o aberto para um contra-ataque. Para além destes, há um conjunto de feitiços, que vão desde meros “tirinhos” mágicos a um mão gigante que esmurra violentamente qualquer pobre criatura que esteja no caminho dela. Todos estes feitiços mudam o seu comportamento conforme o tempo que ficamos a carregá-los, o que leva a que tenhamos de medir se vale a pena correr o risco ou não. De vez em quando, Nier muda ligeiramente as regras do jogo e “muda” temporariamente de género (ou antes de estilo), mas a base é sempre a mesma. Estes momentos tendem a estar a prestar homenagem a outros jogos, por sinal, coisa que é particularmente óbvia numa secção em que o jogo fica com ângulos de câmara fixas e nos remove a habilidade de dodge numa clara referência aos Resident Evil clássicos.

No jogo original, o gameplay era algo que prejudicava activamente a experiência. O trabalho que aqui houve, não o tendo tornado excelente, fez sem dúvida com que não fosse prejudicial para aquilo que verdadeiramente brilha no jogo: as personagens, a história e a banda sonora espectacular que teima em não sair da minha cabeça!

Ironicamente, é sobre estas coisas que não posso explicar muito sem achar que estou a estragar a experiência a quem ler esta crítica. O que por um lado é bom, senão era capaz de ficar aqui páginas e páginas a explicar porque é que Nier ressoou tanto comigo. Assim sendo, vou tentar fazer o meu melhor para descrever isto adequadamente sem estragar nada: Nier é um conto de fadas, mas um conto de fadas no qual a nossa percepção das coisas vai mudando. Não só pela evolução das personagens em si, mas também por coisas que vamos descobrindo sobre o mundo, as personagens e as circunstâncias à medida que o jogamos. É também isto que torna as sidequests interessante: são em geral meras fetch quests sem grande interesse mecânico, mas a maneira como são usadas para nos dar mais detalhe sobre o mundo e a vida daquela gente acaba a ser uma recompensa satisfatória. A “frieza andróide” de Automata não está aqui presente: as personagens são mais humanas e complexas, têm esperanças e desejos, e isso faz com que o jogo tenha muito mais impacto. E a música ajuda e muito: durante o jogo, “descreve” perfeitamente os ambientes por onde passamos. Depois do jogo, apercebemo-nos o quão bem se adequa às personagens e situações, fazendo com que as revivamos na nossa cabeça ao ouvirmos. Não posso deixar de recomendar esta análise à banda sonora do jogo, nem que seja só para que tenham um cheirinho da mesma.

Antes de terminar, convém apontar um último senão: o jogo tem fins múltiplos, mas é necessário rejogar algumas secções para os poder ver. Ao rejogar, temos acesso a algum novo conteúdo que nos mostra mais sobre o mundo, mas é essencialmente a mesma coisa de novo de um ponto de vista de gameplay. Estarmos mais poderosos e sabermos de antemão o que estamos a fazer ajuda bastante, mas é algo que pode ser maçador para algumas pessoas. Ao menos o Automata acabava por nos dar uma experiência mecânica algo diferente de cada vez.

Chega então a altura de dar uma nota a Nier. E neste caso, para a versão PC, vai ser um 7.5 em 10. Não fosse pelo mau port, daria ao jogo um 9.5 sem ponta de dúvida, mas acho que o estado em que foi lançado é indesculpável. Os mods resolvem o assunto, claro, mas nem toda a gente tem o conhecimento para os utilizar. E assim tenho de dar uma nota um pouco mais baixa do que queria àquele que foi um dos meus jogos favoritos dos últimos tempos. Mas recomendo-o com toda a força na mesma!

NieR Replicant ver.1.22474487139 no OpenCritic


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