Donkey Kong Bananza – A vida de mineiro deu cabo de mim e apaixonei-me (Análise)

Donkey Kong é um dos nomes mais sonantes e icónicos no mundo dos videojogos desde da sua estreia em 1981, desde então tivemos de tudo um pouco em termos de videojogos protagonizados por este primata, sendo obviamente a sua era dourada nos anos 90 em que a Rare revolucionou a personagem e o seu mundo com a trilogia Country e o infame Donkey Kong 64. Desde então a franquia tem andado numa montanha russa de qualidade, mas sempre numa perspetiva 2D e acabando por regressar à série Country na década de 2010 com Returns e Tropical Freeze, ambos 2 jogos muito bons, eu considero este último um dos melhores jogos de plataformas 2D dos últimos anos, mas ficou sempre aquele bichinho na cabeça dos fãs de quando é que DK iria voltar a dar o salto para a terceira dimensão, e bem… esse tempo chegou e o resultado não poderia ser melhor.

Desenvolvido pela Nintendo EPD8, a equipa que nos trouxe Super Mario Odyssey, um dos melhores jogos de plataformas em 3D de sempre e um dos meus jogos favoritos, chega-nos Donkey Kong Bananza, e admito, inicialmente à data do seu anúncio fiquei um pouco dececionado terem optado por este jogo e não simplesmente uma sequela de Odyssey, especialmente porque nas primeiras ocasiões em que o jogo foi demonstrado tudo parecia muito pouco coeso e sem grande objetivo, como se o foco tivesse todo ido para a destruição dos cenários em detrimento de um mundo com nexo e objetivos definidos por encontrar e explorar, mas tudo mudou quando saiu o Nintendo Direct dedicado em exclusivo a Bananza, em que muitos destes meus receios foram colmatados e fiquei mais confiante para o lançamento, mas ainda assim nada me poderia ter preparado para o quão bom este jogo realmente seria…

O jogo começa com DK a trabalhar no duro nas minas ao saber que nestas tinham encontrado misteriosas bananas verdes designadas de Banandium Gems, no entanto, devido à intervenção da VoidCo, uma empresa mineira que decide roubar estas bananas para o seu próprio proveito, a terra colapsa e a mina inteira, assim como o próprio DK, são levados para o submundo, pelo caminho DK conhece Pauline, uma jovem rapariga que o acompanha na sua viagem mais a fundo do submundo, onde reza a lenda que no fundo da terra habita uma raiz capaz de conceder qualquer desejo (e obviamente que o sonho de DK são bananas, só podia), mas para isso dado o perigo desta travessia eles precisam da ajuda de vários animais ancestrais que provêm deste mundo subterrâneo e concedem a DK poderes que o ajudam na sua jornada e a impedir os planos malévolos da VoidCo.

No geral gostei da narrativa do jogo, não é muito complexa nem reinventa a roda, mas o que faz está bem executado e a relação de DK e Pauline é palpável e denota-se um aproximar dos dois bastante enternecedor no decorrer desta aventura.

No que toca ao quesito visual, este jogo é bastante bonito e colorido, tendo cada mundo novo um visual não só muito distinto e particular como goza de uma palete de cores fenomenal.
Os vários mundos acabam por ser bastante complexos visualmente e na reta final temos mesmo dicotomias entre os diferentes níveis de profundidade que exploramos em cada mundo, como por exemplo um mundo gelado que ao irmos mais a fundo descobrimos uma região coberta de lava nas camadas inferiores, sendo por isso um deleite autêntico explorar e demolir os vários níveis dada a sua variedade, o que torna a destruição dos mesmos ainda mais divertida porque raramente parece que estamos nos mesmos sítios.

O jogo apresenta uma resolução intermédia entre 4K e 1080p e no geral sinto que tem bom aspeto numa TV, embora com algum aliasing bastante notório, mas onde o jogo brilha mesmo visualmente é no modo portátil, onde corre a 1080p nativo que coincide com a resolução do ecrã e o resultado é muito melhor a nível de fluidez que no modo TV, que foi sem dúvida o meu maior problema com o jogo, pois neste jogo, por possuir um tipo obsoleto de V-Sync a mais mínima queda abaixo de 60fps, mesmo que fosse um soluço pequeno para 59fps noutro jogo qualquer, aqui manifesta-se como uma queda abrupta para 30fps e nas zonas mais tardias da experiência a framerate é muito inconsistente e por vezes desorientadora pois oscila entre 60 e 30 a um ritmo frenético, sinto que isto podia ser colmatado com uma opção de desativar o V-Sync nas opções mas ainda assim não arruína o resto do jogo e o quão bom é.

A banda sonora é composta maioritariamente por Naoto Kubo e o resultado é magistral, o jogo tem das melhores bandas sonoras dos últimos anos e ainda inclui novas versões de clássicos conhecidos para fãs de longa data de Donkey Kong, destaco em especial os temas das diferentes formas Bananza que DK obtém no decorrer do jogo que são excecionais.

Na sua essência, Donkey Kong Bananza bebe muito da fórmula de Odyssey, ao ponto de se poder chamar de certa forma a este jogo de sucessor em tudo menos em nome, DK é capaz de fazer quase os mesmos movimentos, mas a diferença chave é que não só possui mecânicas novas como surfar usando peças de terreno como prancha ou como plataforma para fazer um duplo salto, exatamente como num Klonoa, algo que me deixou estupidamente feliz porque eu adoro Klonoa e é uma mecânica que não se vê assim tanto atualmente.

Mas o verdadeiro diferenciador e a grande inovação deste titulo e provavelmente a Magnum Opus da Nintendo EPD até hoje é: a capacidade de poder moldar e destruir todo o terreno nos vários mundos que exploramos e criar as nossas próprias rotas seja para o próximo objetivo, banana ou qualquer outro colecionável possível. Criatividade e exploração são a essência do jogo e este é capaz de ser dos jogos mais viciantes que já joguei em toda a minha vida, dei por mim várias vezes a dizer “só mais uma banana e desligo”, quando dava por mim tinham passado 4 horas e ainda estava a encontrar segredos novos em cada nível que me atrasavam mais uns minutos até desligar.
Este jogo é um deleite para qualquer pessoa que goste o mínimo que seja de exploração e acima de tudo de criatividade porque destruir o terreno é não só absurdamente divertido e satisfatório como nos permite encontrar colecionáveis de formas hilariantes que provavelmente outra pessoa não tinha pensado antes, e as inúmeras técnicas de movimento avançadas a que a Nintendo EPD já nos habituou no passado regressam com ainda mais força neste titulo e o resultado é basicamente um misto de Super Mario Odyssey e The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom que não só pega na essência desses 2 títulos, decide experimentar coisas novas com o contexto de jogo de plataformas com destruição modular do terreno e ainda assim consegue melhorar aspetos destes jogos no que à liberdade e criatividade diz respeito.
No entanto denoto que dada a sua natureza mais aberta por vezes se note que os níveis são um pouco menos concisos e focados que num Odyssey e há menos desafios de plataformas que nesse jogo, mas pessoalmente isso não me afetou em nada, pois sinto que o sacrifício funcionou às mil maravilhas para esta experiência em específico.

Ao longo da aventura DK desbloqueia 5 novas formas com poderes únicos do qual usufrui e facilitam a sua aventura, e no geral todas elas são úteis e satisfatórias de se usar, desde um Gorila gigante capaz de esmurrar inimigos e materiais de terreno que DK normalmente não consegue, ou uma avestruz capaz de voar (sim, elas voam aqui) longas distâncias e facilitam a travessia por imensos destes cenários, podendo ainda ser possível alternar entre elas em tempo real de forma instantânea e fazer combinações absurdas que são muito satisfatórias e úteis em especial nos desafios mais difíceis do jogo.

Uma das áreas onde Super Mario Odyssey mais pecava, para mim, sempre foi nos confrontos com bosses que eram repetitivos, simplistas e na sua generalidade demasiado fáceis, Bananza resolve a maioria destes problemas com lutas concetualmente incríveis e muito divertidas, porém…os bosses morrem de forma absurdamente rápida, com ou sem poderes, pelo que nem dá para usufruir muito destes confrontos infelizmente, sem dúvida a minha maior desilusão no que diz respeito à jogabilidade em si mas felizmente os últimos bosses do jogo são perfeitos, esses sim têm tudo o que eu queria num boss desde do principio, desafiantes e bastante competentes em termos de vida.

Além de inúmeras bananas existem também neste jogo inúmeros fósseis para colecionar, que inicialmente me assustaram dada a sua quantidade, mas tendo em conta o quão divertido é destruir o cenário e nos perdermos a destruir pedras é também bastante fácil de acumular um número considerável de fósseis e bananas só a explorar o terreno à lei do murro. Temos também inúmeros desafios contidos e é aqui que o jogo mais bebe de Zelda, pois muitos destes desafios possuem imensas soluções para resolver os problemas que nos apresentam e nenhuma delas está errada, há mesmo muita ideia estapafúrdia que funciona e o jogo incentiva a essa experimentação, e além disso há alguns puzzles que utilizam as várias mecânicas do jogo de forma soberba.

As bananas neste jogo são possivelmente o melhor colecionável neste género até hoje pois não são simplesmente um número que devem aumentar para completar o jogo, por cada 5 bananas colecionadas obtemos pontos de habilidade que nos permitem melhorar as nossas estatísticas e novas habilidades, que em certos casos podem mudar por completo o nosso leque de movimentos e poderes para enfrentar os vários inimigos, algo que torna esta coleção de bananas ainda mais interessante de se fazer que, por exemplo, as estrelas num Mario 3D.

A exploração torna-se ainda mais satisfatória dada a existência de tantos mundos e cada um deles possuir uma mecânica única que o torna radicalmente distinto dos anteriores, algo que me deixou boquiaberto dada a longevidade e quantidade de mundos no jogo que mesmo ao fim de 25-30h estava a encontrar mecânicas tão únicas e os melhores níveis são todos na reta final, tornando o jogo efetivamente melhor quanto mais progredimos, os primeiros níveis são incríveis, mas os últimos são dos melhores já postos num videojogo.
Algo que também adorei é o sistema de mapa do jogo, não só é um mapa completamente 3D como mostra toda a destruição que tenhamos feito num dado mundo e a representa em tempo real, algo que quando me apercebi me deixou fascinado com a tecnologia utilizada pois torna a destruição ainda mais orgânica, sendo espelhada em algo a que acedemos imensas vezes e então é notória uma maior sensação de progressão e presença num dado cenário.

Além disto tudo o jogo possui também um modo para as pessoas com uma veia mais artística chamado DK Artist que permite esculturar e moldar várias estruturas de forma a criar peças de arte, podendo ser utilizado o modo rato dos Joycon para o fazer de forma mais precisa, algo que funciona bem, embora eu seja nabo a fazer este tipo de coisas e o resultado não saia grande coisa.

Em suma, Donkey Kong Bananza é arrebatador em todos os sentidos, jogo videojogos há 20 anos e esta foi das experiências mais divertidas, viciantes e acima de tudo incríveis que já tive, recomendo este jogo a qualquer fã de videojogos no geral, porque sinto que é mesmo daquelas experiências que só se tem uma vez na vida, pelo que lhe atribuo o 10/10 mais fácil que já atribui desde que escrevo análises.

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