Kingdom Come Deliverance II – Aventura, exploração e imersão (Análise)

Quando tropecei por um vídeo de gameplay do Kingdom Come Deliverance da Warhorse Studios, previamente ao seu lançamento em 2018, fiquei agarrado, é raro encontrar jogos medievais e imersivos sem o típico elemento de fantasia moderna: dragões, elfos, feiticeiros, etc. E eu tenho um fraquinho por simulação medieval, não sou um fanático por história nem a estudo frequentemente, mas aprecio peças históricas em videojogos (o termo “historicamente correcto” está um pouco manchado nestes últimos anos, infelizmente) e este período atrai-me sempre.

7 anos depois dum lançamento de sucesso, a Warhorse lança a sua sequela a um dos meus jogos favoritos da geração passada. Kingdom Come Deliverance II está disponível para PlayStation 5, Xbox Series S/X e PC.

O jogo pega logo por onde o seu antecessor acabou. Henry, o protagonista e escudeiro do Lorde Capon, viajam até Kuttenberg para entregar uma mensagem ao Lorde Von Bergrow, mas cai tudo por terra quando são emboscados por um gangue de bandidos e perdem tudo o que tinham. Depois duma fuga arriscada, o par sobrevive e descobre que podem encontrar Von Bergrow num casamento, contudo, têm de encontrar uma forma de serem convidados.

É depois deste prólogo que Kingdom Come Deliverance II vos atira ao mundo apenas com um objetivo: “Descobre como ser convidado para o casamento” e umas dicas de como o fazer. Eu lá me atiro ao mundo e não tarda estou a martelar ferraduras ou a meter-me em lutas na taberna. A certa altura, depois de andar à porrada mais uma vez, por causa dum grupo de cumanos desertores, os habitantes da aldeia, receosos de serem saqueados, pedem-me para afastar o grupo de desertores para longe da aldeia, eu concordo, e lá parto em busca do acampamento deles.

Caminho pela direção que me foi apontada, ainda sem cavalo, mas a apreciar a paisagem verde, o som dos pássaros a cantar e o leve som do riacho à minha direita quando me deparo com um par de homens que não parecem estar muito contentes por me ver, e desatam logo a disparar ameaças na minha direção. Eu, armado em grande, saco da minha espada para me defender e talvez sacar uns trocos dos bolsos destes bandidos. Caí ao terceiro golpe, afinal, até podes ser bom espadachim (eu não era naquele momento), mas sem armadura, não vais longe quando estás contra mais que um inimigo.

Voltando ao save anterior, desta vez fui mais esperto e evitei o caminho que tomei da última vez. Eventualmente encontrei o campo dos desertores, mas não estava com intenções de enfrentar um grupo inteiro sozinho. Felizmente, o líder deles recebeu-me calorosamente e convidou-me a beber com eles. Estes cumanos não bebem só um ou dois copos, eles bebem até cair para o lado. A certa altura, o Henry estava tão bêbado que começou a falar com um cão, foi parar ao meio do rio e acordou no dia seguinte ainda podre de bêbado, mas com um novo grupo de amigos. Pedi-lhes docilmente para evitar voltar à aldeia onde causaram problemas e eles concordaram, então lá parti eu, a tombar para os lados da bebida, com as notícias de uma missão bem sucedida aos aldeões. Chegando à porta da taverna, a primeira coisa que me perguntam é: “Onde estão as tuas roupas?” Olho para baixo e estou de cuecas, algures durante a bebedeira perdi os trapos que tinha vestido e esqueci-me de os voltar a equipar.

Kingdom Come Deliverance II conta com esta mistura de quests abertas e elementos aleatórios do mundo para criar uma experiência própria para cada jogador, não é nada de novo, já o vimos em outros Open World RPGs, mas os seus elementos reactivos, como os NPCs que respondem adequadamente a quase todas as acções que tomam, e design das quests para terem várias respostas e soluções impulsionam a imersão do jogo, que só tende a ser quebrada pelos ocasionais bugs que encontrei.

Caminhar pela floresta ou pelos trilhos já é uma experiência por si só. O som ambiental é excelente, quando estamos dentro das florestas ouvimos o cantar dos pássaros a rodear-nos, conseguimos ouvir o murmúrio contínuo do rio ao aproximar-mo-nos da água, a chuva a cair no metal do nosso capacete ou as correntes da armadura a baloiçar quando caímos ou saltamos. A luz do sol esgueira-se por entre as folhas e com alguma atenção, até somos capazes de descobrir um segredo no meio da floresta, um túmulo abandonado que, se estivermos acompanhados por uma pá, podemos (eticamente questionável) escavar e encontrar um mapa curioso com indicações desenhadas à mão para um outro tesouro escondido.

O jogo brilha nestes pedaços de aventura, até diria que o seu auge é atingido quando não estamos a focar-nos na campanha principal. Não quero dizer que é má, porque não é. Mas é mais linear, mais focada e os desenvolvedores claramente estão à espera que o jogador explore, e não tente apressar pelas quests principais, onde a exploração acontece sim, mas é mais guiada. Também tem muito mais combate.

O combate é muito semelhante ao jogo anterior, e para quem jogou ou frequentou as discussões à sua volta, deve lembrar-se do quão polarizante foi. Eu sou fã deste sistema de combate, não é um hack n’ slash ao estilo de Devil May Cry, obviamente, mas é muito mais interessante e bem executado que outros jogos do mesmo género, ao contrário de estarmos apenas a oscilar a espada dum lado para outro como num Elder Scrolls, há aqui alguma táctica e profundidade. Ataca-se a partir de 5 direções, e têm de estar atentos ao inimigo, procurar não só por aberturas como também por ataques e por que lado esses ataques vêm se queremos contra-atacar efetivamente. Há combos, a parte onde atacam é importante (por exemplo: atacar um inimigo com um capacete na cabeça é mais efetivo com um martelo do que com uma espada). O equipamento é importante, e o número de inimigos que enfrentam também. O Henry não é um super herói (pelo menos, não é no início), e se lutam contra vários inimigos, eles vão cercar-vos, vão usar essa vantagem e atacar constantemente até caírem para o lado. O jogo atingiu o realismo que procurava e embora a falta de simplicidade pode ser um obstáculo para alguns jogadores, eu aconselho paciência e perseverança, porque assim que aprendem como funciona, fica muito mais divertido.

Já o Stealth (parte importante para algumas quests principais) é o completo contrário do combate. Há uma mão cheia de secções do jogo que praticamente obrigam-nos a escolher entre furtividade ou enfrentar grupos de inimigos, e este stealth consegue ser uma luta contra o próprio jogo. Há detalhes bem pensados, vestir roupa escura é importante, se tiverem armadura, esta vai fazer mais barulho. Se estiverem sujos de terra e porcaria, conseguem camuflar-se melhor no exterior, mas os inimigos também vos conseguem detetar pelo mau cheiro do Henry, contudo, há partes completamente preenchidas de soldados em que a única opção é matar alguns furtivamente para conseguir escapar, e tive imensas frustrações com isso. É preciso uma adaga para matar inimigos furtivamente, é preciso aproximarem-se deles, e é preciso SEGURAR o botão durante 1 ou 2 segundos para iniciar a animação de os matar. E esses 1 ou 2 segundos são horríveis, porque são a diferença entre o inimigo vos detetar ou não. A certa altura eu passei uns 30 minutos a tentar matar dois inimigos para escapar dum castelo, e a falhar porque matava um, e o outro detetava-me enquanto eu estava a segurar o botão de matar. Desliguei o jogo, e tentei no dia seguinte.

Tal como no stealth, há por vezes estas pequenas frustrações com os sistemas do jogo, o Henry está sempre a ficar preso no chão, as animações de combate, quando estamos a matar um inimigo, deixam-nos de costas para outro soltado e completamente vulneráveis, há mais pop-in de texturas do que eu gostaria, e as personagens terem legendas por cima da cabeça delas quando falam durante o gameplay é uma ideia boa em papel, mas sinto que é muito pouco acessível. Perto do final do jogo estava a ter uma das conversas mais importantes para a personagem do Henry, mas tinha dois soldados atrás de mim só a reclamar a atirar insultos, a estragar completamente o tom daquele momento na narrativa. São detalhes pequenos que infelizmente afetam o ponto mais forte do jogo: a sua imersão.

A narrativa em si foi boa ainda que não a considere particularmente memorável. Tem bons momentos, sobretudo quando temos foco na amizade e interações entre o Henry e o Capon. Há cá uma temática focada em vingança e obsessão que já vem do primeiro jogo, e a escrita nestes momentos grandes é competente. Mas no geral, há bastante incoerência na qualidade da escrita, onde por vezes funciona bem, e por outras é muito pouco natural. O início do jogo é particularmente gritante, quando Henry e o grupo de viajantes está a perguntar coisas que naturalmente já todos sabem, mas por necessidade de definir os traços do personagem que o jogador quer construir, temos de passar por estes pedaços de diálogo expositivo. Ainda assim os actores fizeram um bom trabalho, e as minhas partes favoritas do jogo acabaram por ser as partes mais cómicas e pedaços mais engraçados, tanto na história principal como no conteúdo opcional.

Muito do que me faz gostar de Kingdom Come Deliverance II já vem do primeiro jogo, nomeadamente, a imersão e exploração, e esta sequela não tenta reinventar a roda, a Warhorse sabia o que eram as forças o primeiro jogo e apostou nisso. O que para bem ou para mal nos traz um jogo tão sólido como o primeiro, mas sem o elemento de surpresa que a estreia do estúdio tinha em 2018. Acabei a história principal depois de 80 horas, mas deixei mesmo muito conteúdo secundário por fazer, e até tenho pena de ter despachado o jogo nestas últimas 20 horas, mas o backlog não perdoa e ainda tenho uns Piratas Yakuza à minha espera. Atribuo uma nota de 7.5 em 10.

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