Análise: Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties – “Olha mãe! Sem a alma!”

Se frequentam os círculos online da comunidade fã de Yakuza/Like a Dragon, certamente terão notado que recentemente começou a surgir um crescente sentimento de frustração com o Ryu Ga Gotoku Studio devido a lançamentos anuais e alguma falta de criatividade. Like a Dragon Infinite Wealth foi um bom jogo, mas com decisões narrativas questionáveis ou simplesmente cobardes, Like a Dragon: Pirate Yakuza in Hawaii foi um lançamento com tão pouco valor artístico ou narrativo que não devia ter sequer passado pelo processo de pré-produção e agora Yakuza Kiwami 3 – um remake de um dos jogos mais polarizantes da série – é alvo de críticas pelas suas alterações ao enredo que, em vez de se sentir como uma nova perspetiva dos acontecimentos do original, aparenta ser mais uma oportunidade para a RGG criar outros Pirate Yakuzas a partir do desfecho que escreveram.

Ainda assim fui de mente aberta. O Yakuza 3 é dos jogos que menos gosto da série e um remake poderia ajudar a limar algumas das arestas que me repeliam do original.

E até o fizeram, alguns dos pedaços narrativos do original que eu considerei aborrecidos foram cortados ou encurtados. Apesar da importância dos primeiros capítulos para a personagem do Kiryu seguir em frente, com o dia-a-dia dos órfãos e o esforço dele para tentar ajudá-los, ainda que atrapalhado, eram bem pensados mas mal executados: os diálogos eram enfadonhos e o ritmo dos primeiros capítulos faziam com que parecesse que estávamos a fazer tarefas desinteressantes para podermos passar para a parte boa da história. Kiwami 3, em parte, atenua isto. Para ajudar os miúdos, em vez de fetch quests e paredes de texto, agora têm mini-jogos com o Kiryu a fazer tarefas como costurar, cozinhar ou apoiá-los nos trabalhos de casa, o que (e surpreende-me escrever isto) acaba por tornar este pedaço inicial do jogo um pouco mais genuíno.

Infelizmente, não seria um jogo da RGG se não fossemos obrigados a fazer conteúdo secundário para avançar na história principal. Isto acontece há anos com os jogos do estúdio, mas parece que há um medo crónico de que a comunidade diga que o jogo é curto ou que não façam o conteúdo opcional, e por isso levamos com este tipo de “extensão artificial” à longevidade dos jogos deles. O que podia ter sido um jogo de 10 a 12 horas com muito melhor ritmo, acaba por ser um jogo de 15 a 20 horas porque a RGG quer mesmo que entrem num clube de motoqueiros para invadir armazéns de outros gangues (no jogo).

Também tenho sentimentos mistos em relação aos visuais. Superficialmente o jogo tem bom aspecto e mantém-se semelhante aos seus predecessores: Kamurocho à noite continua a ser o melhor que a série tem para oferecer, com os distritos abertos apoderados pelas luzes dos bares, restaurantes e clubes, sempre cheios de pessoas dá mesmo a ideia de ser uma “cidade que nunca dorme”. A parte de Okinawa não mantém a mesma qualidade: durante a demo muitas pessoas notaram que certas secções tinham um trabalho de iluminação terrível. Na altura pensei que fosse um bug mas, se for, continua por corrigir o que leva a que grande parte de Okinawa tenha péssimo aspeto, como se tivesse sido feita por amadores. Com o tempo acabei por conseguir ignorar, mas basta prestar um pouco de atenção para começar a fazer confusão.

Quem jogou o original certamente já viu o termo “Blockuza 3” na internet e sabe porquê, os inimigos eram super defensivos, e chatos. Não acontece tanto aqui, felizmente, e gostei mais do combate neste Kiwami 3 do que no Pirate Yakuza, que parecia estar a inclinar-se para o território musou, todavia está longe de ser tão divertido como o Yakuza 0 ou Lost Judgment, os meus sistemas de combate favoritos da série porque misturavam bem melhor a combinação de estilos com profundidade de combos e desafio. Parece que Yakuza Kiwami 3 ainda está a tentar encontrar um sistema mais simples e acessível e há aqui mecânicas que funcionam bem e deviam ser exploradas. Kiryu tem dois estilos de combate: o clássico brawler que usa punhos e pontapés, que nos incentiva a desviar dos ataques inimigos e contra-atacar pelas costas; E o novo estilo, que usa diversas armas, incentiva parries e ataques de alto alcance que atingem vários inimigos duma vez. Ainda assim não deixo de sentir que as minhas opções são limitadas, que não há muitos combos, que os bosses requerem todos a mesma estratégia, e que a falta de heat actions presentes nos predecessores faz com que estejamos a ver sempre as mesmas animações em repetição.

Com o remake, temos uma expansão chamada “Dark Ties“, que conta a história de Yoshitaka Mine, e contextualiza o passado do personagem e os acontecimentos que levaram à campanha principal de Yakuza 3.

Em termos de jogabilidade, Mine tem os seus próprios movimentos e ataques, mas acaba por jogar da mesma forma que Kiryu. A narrativa é mesmo o ponto principal da expansão e, verdade seja dita, oferece muito pouco. Sem entrar no campo de spoilers, a história desenvolve Mine um pouco como personagem e tenta criar um lado mais empático. Mine, apesar da sua presença limitada na série, sempre foi muito popular e é óbvio que querem aproveitar isto, mas Dark Ties tem a mesma qualidade de escrita e sensação que uma fanfic má de Yakuza 3. Algumas das linhas de diálogo deixaram-me a rir de incrédulo, não acreditei que alguém fosse escrever aquilo com seriedade, outras simplesmente foram enfiadas à força para justificar o buraco onde se meteram (repito: não quero entrar em spoilers). Contudo, Dark Ties tem um conteúdo opcional que funciona como roguelite. Não é muito profundo, mas é diferente e se gostarem do combate, certamente vão-se divertir lá.

No que toca a minijogos e conteúdo extra, têm os clássicos como o Karaoke, bowling e baseball. Também as arenas e combates com uma pequena narrativa e os minijogos do orfanato que mencionei acima podem ser divertidos. Mas, acima de tudo, podem personalizar o vosso próprio telemóvel.

No final de contas, Yakuza Kiwami 3 é um remake seguro, superficial e mais uma forma da SEGA e RGG atirarem outro Yakuza cá para fora sem recorrerem a piratas. Não recomendo comprar pela expansão Dark Ties, mas se nunca jogaram Yakuza 3, é uma boa forma de o fazerem, ainda que seja cada vez mais aparente que quando Toshihiro Nagoshi disse adeus à série em 2021, levou a criatividade com ele. Atribuo um 6 em 10.

Deixamos um agradecimento especial à Ecoplay por fornecer uma cópia do jogo para esta análise.

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