“Time marches on, and the age of a new king draws nearer.”
Confesso que não estava particularmente entusiasmado com o Metaphor: ReFantazio previamente ao seu lançamento. Só joguei Persona 5 e gostei, mas é raro dar-me muito bem com JRPGs: tenho sempre problemas com a escrita em geral e, sobretudo, com a longevidade dos jogos. Pegando no Persona 5 como exemplo, exigir 100 horas do jogador é muito, mesmo muito para alguém que trabalha 8 horas por dia. Estava com ideias de jogar por volta de 15-20 horas disto e fazer uma impressões…
75 horas depois, estava a chegar ao fim. Há algo na fórmula de Persona que funciona bem para mim, talvez o equilíbrio que fazer um jogo muito dependente dum calendário exige na dificuldade e progressão da campanha, ou até o desafio de tentar fazer todas as dungeons num só dia para ter mais dias dedicados a maximizar os links sociais e o próprio personagem. Apesar da história ter uma data limite, têm tempo suficiente para fazer todas as quests que encontram e maximizar os social links todos (jogando em normal e partindo em princípio que não demoram muitos dias a fazer as dungeons principais).



O combate é uma evolução natural dos jogos anteriores da Atlus. Costumo ser crítico dos sistemas de combate por turnos que se resumem ao típico “ataca com o elemento a que o inimigo é fraco”, que Pokémon e muitos outros JRPGs tendem a seguir. O Metaphor também utiliza esse sistema, mas fá-lo de uma maneira mais interessante: atacar fraquezas dá mais acções ao atacante (sejamos nós ou os inimigos), o que torna o jogo bem mais dinâmico do que o típico Pokémon. Temos não só de gerir os turnos, mas também de gerir a quantidade de acções por turno, e para isso é preciso descobrir e abusar das fraquezas dos inimigos, bem como explorar as sinergias que conseguimos criar entre os Archetypes da nossa party (o equivalente aqui às Personas, por assim dizer). Pelo fim do jogo, já tinha estratégias definidas que davam cabo da maior parte dos bosses que encontrava. Comparando a outro JRPG que joguei este ano, Like a Dragon: Infinite Wealth, em vez de a melhor forma de derrotar inimigos ser “malhar na fraqueza até ele cair”, Metaphor permitiu-me encontrar estas combinações mais facilmente e de forma orgânica. Mesmo assim acabei por suar em alguns encontros, já que há umas side quests que são autênticos puzzles disfarçados de batalhas épicas ao som da excelente orquestra de Shoji Meguro.
Nota-se também o trabalho extra que foi focado nos visuais, e não me refiro tanto ao mundo que exploramos – acho que tirando uma ou duas zona o mundo em si não é particularmente cativante – mas sim aos menus, interfaces e à direção geral muito estilística que (peço desculpa por estar a pescar Persona outra vez) já vimos e aplaudimos em Persona. O próprio design do cast tem muito que pode ser estudado (eu sou péssimo nisto, por isso limito-me a realçar que um dos meus personagens favoritos é um ninja morcego albino e não preciso de explicar porquê).



Eu confesso que raramente gosto de histórias em JRPGs, e muitas das queixas que costumo ter (demasiado uso de diálogo expositivo, personagens que roçam em estereótipos, interações pouco naturais…) também estão aqui. Contudo, apesar da execução imperfeita, Metaphor tem muito a dizer. Sabiam que o jogo é político?! (*choque*) Provavelmente devem ter visto algumas imagens com os diálogos das personagens a dizer frases que podem ser interpretadas como políticas, e até mesmo (atrevo-me a dizer), de esquerda. Afinal, o mundo de Metaphor começa como uma monarquia até que certos eventos nos inserem no meio de uma corrida ao trono, e o indivíduo que tiver mais apoio do povo é apontado como o próximo Rei. Sim, é o começo da democracia.
O mundo até este ponto é incrivelmente cruel: racismo, classicismo e todo o tipo de discriminação são a única constante que encontram, a raça com que cada um nasce é o ponto mais importante para o seu futuro e o cast principal está todo unido pelo seu desejo de acabar com esta discriminação, sendo todos eles vítimas de injustiças, inspirados por um livro do protagonista, que fala de uma utopia onde não há diferenças, não há discriminações, não há 1%. E durante a aventura viajamos pelo mundo, a encontrar e corrigir todas as desigualdades que podemos enquanto conquistamos os corações do povo.
Há bons pedaços de reflexão espalhados pelos enredos secundários que se esticam para além da temática de injustiça social ou conflito político. Dois dos meus social links favoritos são focados na perda dum ente querido a estes personagens, como eles lidam com a dor e depressão e como nós, no lugar do protagonista, tentamos (e muitas vezes sentimo-nos inúteis) em conseguir ajudar um amigo num momento difícil. Parte de mim gostava que o diálogo fosse mais orgânico e menos teatral (até tenho a lata de dizer: menos nipónico) nestas partes, mas não deixa de provocar uma reação nem deixa de nos puxar pela empatia.

Voltando à narrativa principal. Claro que inaugurar uma democracia e ganhar a confiança do povo não é assim tão simples, e aqueles no poder têm sempre cartas na manga para dissuadir o público, seja a igreja a aproveitar-se da fé para definir vilões e salvadores, ou os ricos a prometer uma meritocracia sob o seu controlo ou a usar o seu poder para manchar a imagem da concorrência.
Obviamente tudo isto não alertou aquela parte da nossa comunidade de videojogos, porque ao contrário de ter uma protagonista feminina não sexualizada ou personagens queer num trailer ou capa, é necessário jogar com alguma sensibilidade para apanhar estas mensagens políticas, o que levou a que os grunhos que se alimentam de vídeos podres de conspirações no YouTube ainda não tenham descoberto o segredo de que, para surpresa de nenhum de nós, Metaphor é o que eles chamariam de “woke”.

Deixo a nota que (esta é a última juro), Metaphor ReFantazio é, na sua essência, um Persona com uma camada de tinta, mas as melhorias de gameplay, junto com a excelente banda sonora e a narrativa interessante tornam-no um jogo onde acabei por gastar mais de 70 boas horas sem sentir que estava a ficar saturado. Isto para mim, num JRPG, é raro. Atribuo-lhe um 8 em 10.
Código para análise cedido pela Ecoplay.
