(ou o que deviam ter sido impressões da beta de Black Ops 7)
Uma nota prévia antes de começar. Aceitei o desafio de escrever umas impressões da beta do COD Black Ops 7 para o qual recebemos um código; mas apercebi-me imediatamente que não sabia o que dizer sobre o jogo. Este artigo foi uma tentativa de juntar os vários pensamentos sobre este universo e o contexto que o rodeia. Assim, isto não é um artigo substanciado, mas um disparo de ideias. Podem julgá-lo como entenderem, porém aqui não vão encontrar uma análise detalhada do percurso destes jogos. Tenho a certeza de que para isso poderão encontrar artigos, vídeos ou até teses sobre alguns dos tópicos aqui abordados.
Histórias apolíticas e heroísmo
Fiquei ligeiramente surpreendido quando foi anunciado o Black Ops 7. Ao mesmo tempo, claro que já estamos no Black Ops 7, porque a expectativa é que todos os anos seja lançado alguma coisa do Call of Duty. É esperado que exista algo, mesmo que eu não saiba.
Aceitei o código para a early access beta para escrever sobre um franchise (que parece) inesgotável e indestrutível. E a conclusão a que cheguei é que afinal já não sei o que é que este universo hiper militarizado (e americanizado) significa para mim. Não é algo amorfo como o Star Wars, que existe para uma variedade de faixas etárias géneros e gostos. Também não se aproxima do Assassin’s Creed, que ainda me atrai de alguma forma, mas não vou ser saudosista e escrever que antigamente é que era bom e que de alguma forma a pureza dos jogos foram corrompidos pelos cosméticos.
Foi arte propagandista que teve sentido num momento da minha vida e não posso negar as memórias que tenho de jogar com amigos e desafiarmo-nos a passar os jogos na dificuldade máxima, chegando mesmo a apontar estratégias em papel com plantas dos locais e a posição dos inimigos; os jogos online que me enfureciam a vomitar todo o tipo de palavrões (é raro, mas quando acontece hoje fico imediatamente envergonhado); e até a experiência cooperativa dos zombies, descobrindo com estranhos em jogos online ou em fóruns como completar cada mapa.
Não tenho força para navegar esta longa saga que percorre diferentes eras – passadas e futuras – e analisar a vilificação do inimigo da actual política imperialista americana em cada jogo passando por russos, asiáticos, chineses, árabes, ou a contínua representação (espelhando grande parte do cinema americano) dos soldados que assumem o último sacrifício pela pátria a qualquer custo, mártires contra as forças externas (ou internas) que querem assassinar a forma de vida americana como o Vietname ou Cuba, uma nação que nunca errou, agindo sempre em causa justa, e se errou foi por criminosos e monstros se aproveitarem do seu sistema democrático.
Algo tão evidente para muitos que nem é necessário pegar no pensamento de Chomsky. Podem simplesmente abrir o Instagram ou Reddit:

O caso mais recente (e flagrante) deste idealismo, ou excepcionalismoamericano foi com o Modern Warfare (2019) com a atribuição do crime de guerra Highway to Death às tropas russas quando na realidade foi cometido pelas tropas americanas. O argumento que é ficção não me convence, porque se fosse um estúdio russo ou chinês a reacção seria no mínimo jocosa ou alarmante, apontando o tipo de histórias propagandísticas que só acontecem nestes regimes. Ainda relembro o facto destes jogos já terem sido utilizados para recrutamento, inclusive cá em Portugal. Recordo-me da minha surpresa quando abri a caixa do COD: Black Ops e estava um papel de recrutamento para a marinha.
Possivelmente, a mentira é tão grande que se calhar já não é útil esmiuçá-la ou criticá-la. Com a situação actual de Israel e a Palestina, sabendo do patrocínio americano deste genocídio (que o longo silêncio do nosso governo também nos envergonha, além da sua cumplicidade) é útil levantar questões sobre as campanhas destes jogos? E então sobre a ocupação de Hawaii e o tratamento e estatuto de First Nation (indígenas americanos) nas “reservas”? Não são preocupações distantes das que são colocadas sobre nações condenadas pelo direito internacional ou pela política externa americana.
Talvez o melhor seja assumir isto como o género que é: propaganda militar americana. Isso não invalida a sua experiência; Top Gun também o é e vê-se bem (q.b.). Na generalidade das campanhas, de forma menos ou mais óbvia, a América é salva dos vilões – inimigos fora e dentro -, e os heróis são heróis. Não sei como será o Black Ops 7, mas vou deduzir que haverá uma traição de um membro do grupo, a realização que o protagonista está a lutar por uma corporação vil e que têm que sacrificar tudo para a pátria seja salva. E assim, os heróis serão heróis.
Infelizmente, além da ficção propagandista, estão agarrados os contratos multimilionários da Microsoft com o exército americano e israelita. A cumplicidade na destruição de Gaza diminuiu recentemente por pressão internacional e dos trabalhadores que tiveram coragem de falar. A decisão de pagar por um videojogo é uma decisão política? Possivelmente. Mas com a inserção de uma pessoa num sistema económico tão entrelaçado e sufocante, não é possível lutar todas as batalhas, contudo, não comprar um videojogo, deve ser das mais fáceis. Ultimamente, também sou hipócrita, escrevo este artigo num computador com o sistema operativo do Windows, e tenho intenções de comprar o Doom Dark Ages e o Indiana Jones: The Great Circle. Será esta a forma de conseguir vergar a Microsoft? Terá um boicote individual impacto na situação em Gaza ou apenas quero uma consciência limpa, mas sem exigir activismo ou um esforço real?
Nesse tópico, estão aqui alguns grupos para onde podem doar dinheiro para a ajudar a Palestina: PRCS – Palestine Red Crescent Society, ELE ELNA ELAK, Seeds of Hope Educational Tent, Animator Hanneen, Associação Awda. Se tiverem interesse em estarem alertados ou envolvidos com a causa podem ir ao sítio do MPPM (Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente) ou o CPPC (Conselho Português pela Paz e Cooperação).
Um videojogo é suposto ser divertido
Tem sido uma opinião controversa lutar contra esta ideia, ou pelo menos colocar em causa a palavra divertido. O que é que isso significa para cada pessoa? Uma das últimas conversas que tive sobre isso foi com um amigo que estranhou quando disse que achava o Disco Elysium divertido, um comentário que vinha de uma longa discussão sobre a essência do videojogo enquanto arte ou entretenimento, ou os dois. Não chegámos a um acordo (raramente chegamos), mas continuo a insistir que a frase “um videojogo é suposto ser divertido” é no mínimo redutora. O multijogador e os zombies de Black Ops 7 são divertidos? São. Durante exactamente uma hora e vinte e quatro minutos foi divertido jogar, e depois desinstalei a beta. Se tivesse o jogo tenho a certeza que voltaria a pegar nele para desligar-me do redor e receber estímulos visuais e auditivos básicos de quando a quando; no entanto, nunca seria mais que isso, uma pastilha.
O que é essa experiência online agora? Praticamente o mesmo… acho. Sou um turista, não é o meu espaço. A experiência online deste franchise sempre foi, para mim, casual. Mecanicamente esta entrada segue a linha dos últimos jogos, movimento rápido e flexível – seja em deslocação ou parado -, redobrando o sucesso dos jogadores mais reactivos. Mergulhas, saltas, corres uma parede, se a tua arma dispara mais depressa que a do outro, a probabilidade de ficares de pé é maior. Os poucos mapas que joguei raramente favorecem espaços abertos, acabando por afunilar os jogadores em corredores, interiores de prédios ou aéreas com alguma cobertura. Haverá uma maior complexidade por detrás destes mapas, mas, não tive vontade de os estudar.
Se na altura da PS3 já existia uma cultura estabelecida das melhores estratégias, passou-me ao lado. Talvez um amigo fizesse uma recomendação, ou um estranho num jogo aleatório, ” arma x, habilidades y; Dolphin dive; naquele spot matas bués.” Desse período a ligação mais forte que tenho é jogar com os meus amigos. Longas jogatanas a passarmos o comando com cada morte ou entre partidas, risadas e provocações. Lembro-me em particular de uma semana fria de Agosto. Um amigo meu, F, voltou do centro comercial com a trilogia original Call of Duty e impôs o desafio de passar os três jogos na dificuldade máxima. O irmão mais novo dele, S, estava entusiasmado, mas foi o que jogou menos. Tivemos a semana inteira a jogar, trocando o comando, desenhando planos em papel para as melhores estratégias, gritando em frustração, celebrando os sucessos. A passagem de cada jogo era motivo para um enorme sorriso. Não foi uma experiência única a estes jogos, mas fizeram parte disso.

Ao longo dos anos devo ter jogado uma ou outra entrada pelas betas ou fins de semanas grátis, especialmente nos zombies. Penso que o Black Ops IV terá sido o último porque tinha recebido no PS Plus. E de forma inesperada foi o jogo onde voltei a fazer uma pequena lan party para jogar o co-op com mais três pessoas; juntando duas televisões e duas consolas. A verdade é que um grupo de amigos também tem força. Hoje em dia apenas jogo League of Legends (para mal dos meus pecados) porque amigos meus jogam. É o factor chave. Também reconheço que desde o fim da minha adolescência que deixei de estar tão divido entre jogos individuais e multi-jogador, dando prioridade ao primeiro. Ainda há jogos online que jogo como o DRG, GT7 ou Helldivers, mas não regularmente.
Não sei se o Call of Duty voltará a ter uma presença na minha vida como antes, provavelmente não, porém isso também não me entristece. Esperadamente, não sou a mesma pessoa, e não desejo recuar a esses tempos. Para quem ainda continua investido neste franchise, seja por amizade competição ou tédio, ele por cá continua.
